FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO REÚNE OLHARES PARA VER O MUNDO CONTEMPORÂNEO E DISCUTIR PERSPECTIVAS PARA UM FUTURO QUE JÁ COMEÇOU



O ciclo de conferências, alinhado ao projeto cultural múltiplo Fronteiras do Pensamento, propõe a liberdade de expressão intelectual, a diversidade de ideias e a educação de qualidade como ferramentas para o desenvolvimento social.

As mais de 200 conferências realizadas pelo país para milhares de espectadores vêm aproximando o grande público do pensamento de artistas, cientistas e líderes de todos os continentes - e já trouxe à Bahia nomes como Enrique Peñalosa, Leymah Gbowee, Wim Wenders, Edgar Morin, Manuel Castells, Contardo Calligaris, Luc Ferry, Salman Rushdie, Jean-Michel Cousteau e Valter Hugo Mãe, entre outros.

Muito além das séries de conferências, as iniciativas também se constituem como uma plataforma de conteúdo que gera filmes de curta e média metragens, séries de livros, fascículos educacionais e muitas outras publicações culturais disponíveis no portal www.fronteiras.com.

De acordo com a organização norte-americana Freedom House, o período de 2016 marcou o 11º ano consecutivo de recuo da democracia e das liberdades civis no planeta, com os valores da sociedade de direito, contrários ao autoritarismo, sendo tensionados diariamente.

Por isso interessa a discussão sobre os princípios que conduzem nossas nossas escolhas sociais, diante do atual cenário de fronteiras desmontadas, migração de refugiados, desfragmentação das instituições, impacto entre culturas e consolidação de “pós-verdades” na internet.

O Fronteiras Braskem do Pensamento teve início no dia 3 de julho, com o escritor moçambicano Mia Couto, e traz ainda a Salvador a crítica cultural norte-americana Camille Paglia, no dia 15 de agosto, e a ativista dos direitos humanos moçambicana, Graça Machel, em 5 de setembro.

As conferências ocorrem no Teatro Castro Alves, às 20h30. Ingressos à venda na bilheiteria do TCA, nos postos do SAC e no www.ingressorapido.com.br

Mais informações: www.fronteiras.com/salvador Confira o conteúdo exclusivo de mais de 150 intelectuais internacionais em www.fronteiras.com

MIA COUTO

(Moçambique, 1955)

Considerado um dos principais escritores do continente africano e também um dos mais traduzidos no mundo, Mia Couto é comparado a Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, suas obras recriam a língua portuguesa com influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa. Graduado em Biologia, dirige uma empresa que faz estudos de impacto ambiental e desenvolve trabalhos de pesquisa sobre mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. No projeto Fronteiras do Pensamento realizou as conferências “Um repensar de fronteiras”, em 2012, em Porto Alegre, e “A peneira e a água”, em 2014, em São Paulo. Os resumos das conferências e entrevistas exclusivas estão disponíveis no portal www.fronteiras.com.

Mia Couto se sente “em casa” na Bahia para falar de suas impressões de mundo

A Casa do Rio Vermelho ou Casa de Jorge Amado - como ficou conhecida a residência onde viveu o casal de escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai - não poderia ter sido ambiente mais familiar para o escritor moçambicano Mia Couto falar, em coletiva à imprensa baiana, sobre as suas impressões de mundo. Leitor e admirador da obra amadiana – que cruzou o Atlântico e o influenciou sobremaneira –, Mia veio à Bahia para inaugurar a edição 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento, no dia 3 de julho, no Teatro Castro Alves, assistido por uma plateia que lotou o espaço para ouvi-lo desfiar o tema “Os deuses dos outros”.

Mia Couto, que viaja pelo mundo escrevendo as suas próprias raízes, conta história entrelaçadas de memórias e sonhos através de uma linguagem rica em neologismos que evoca a intuição de mundos fantásticos e surrealistas. Ele já chegou a ser comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Mas é na grandeza de sua obra literária – composta por 16 romances, além de contos, crônicas e poesias, sendo o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal, com obras traduzidas e publicadas em 24 países – que ele chega aos lugares carregado de peculiar simplicidade para falar de singelezas com a sensibilidade dos mestres.

O lugar onde foi moradia de Jorge e Zélia, por exemplo, logo na entrada remeteu Mia Couto à sua infância, lhe trazendo o sentimento de “saudade de casa”, que ficou eterna em sua memória. “É um sentimento que faz com que a casa da gente seja um espaço sagrado, encantado. E, agora, acabo de entrar aqui e é como se esta casa já fosse minha”, disse Antonio Emílio Leite Couto, 62 anos, que adotou o pseudônimo porque adorava gatos e o seu irmão não sabia pronunciar o seu nome.

A importância da literatura de Jorge Amado na sua obra foi referenciada por Mia Couto, sob testemunha de Paloma Amado, filha do casal famoso. “Jorge foi muito importante ao mostrar que era possível escrever em um outro português, diferente da literatura que vinha de Portugal. Ele nos deu outra inspiração e mostrou que personagens africanos também poderiam estar na literatura. Jorge foi, portanto, um dos causadores desse meu encantamento”. Mia conta, ainda, que nos primeiros livros do escritor baiano era como se ele estivesse pintando um outro lado da África. “Porque a Bahia, em um primeiro momento, lembra muitas cidades africanas. Mas, depois, a gente vê que vocês são completamente brasileiros”, relatou, citando “Jubiabá”, “Mar Morto” e “Capitães da Areia” como os livros de Jorge Amado que mais o marcaram.

Outro tema do “bate-papo”, como ele preferiu chamar a entrevista com os jornalistas baianos, foi sobre tolerância religiosa, destacando o sincretismo no Brasil. “Este país é um caldeirão de mestiçagens e não sei onde aconteceu algo como aqui. Não conheço outro país que tenha isto. Estive no Rio Grande do Sul, onde há uma maioria de origem alemã ou italiana, mas ali está cheio de terreiros de Umbanda. E isso é surpreendente, principalmente para quem chega da África. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil é cheio de preconceito racial”, lamentou o escritor de descendência portuguesa, afirmando que, mesmo antes de ser conhecido, nunca sofreu discriminação no seu país por ser branco.

O assunto puxou outro, e Mia Couto lembrou quando Barack Obama venceu as eleições para a presidência dos Estados Unidos, em 2008. Ele conta que se sentiu representado por um negro no comando daquele país. “Na verdade, não fiquei entusiasmado por ser particularmente Obama o eleito, mas por ser um negro na presidência dos EUA”. Na época, Mia escreveu o artigo “E se Obama fosse africano?”, explicando que aquele texto veio à tona com o objetivo de se comunicar com os africanos e era um pedido para que Obama fizesse política olhando mais para a África. “Mas era evidente que aquilo não ia acontecer”, disse. Em alusão ao atual presidente dos EUA, ele disse que o texto se chamaria “E se Trump fosse humano?”, brincou o engajado escritor moçambicano.

Mia Couto fala sobre o papel da literatura na libertação do ser humano

Movido ao talento de contar histórias, o escritor moçambicano Mia Couto fez uma sensível abordagem sobre a necessidade do homem de se reconectar à natureza, à poesia e aos mistérios do mundo, na abertura da edição 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento, na noite do dia 3 de julho, no Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador. Uma concorrida e atenta plateia compareceu para ouvir os seus reflexivos relatos, protagonizados por pessoas simples de sua terra, que serviram de personagens para que ele – que se define como “ateu não praticante” - discorresse do tema da conferência: Os deuses dos outros.

Mia Couto abordou a temática partindo do seu pensamento de que a religião é a capacidade do encontro com aquilo que parece crente à pessoa. “Ninguém mora dentro de si mesmo, mas mora em todos”, acredita o escritor. Destacou, então, a ligação da religiosidade com os movimentos políticos e o papel da literatura na libertação do ser humano, revelando que a literatura e a poesia o salvaram do caos de um tempo sem paz, marcado pela Guerra de Moçambique, que durou 16 anos (1976-1992).

Mediada pelo escritor pernambucano Marcelino Freire (vencedor do Prêmio Jabuti 2006), a conferência foi marcada por reflexões impactantes de Mia Couto, a exemplo da interferência dos meios de comunicação na vida das pessoas. “A televisão é uma peneira que não deixa passar a voz dos outros”, disse, ao lembrar de uma fábula contada pela avó do escritor do Zimbabwe, Chenjerai Hove (1956 – 2015), sobre uma “voz demoníaca” que saia de uma caixa chamada rádio.

Autor de uma extensa e diversificada obra - que inclui poesia, contos, romance e crônicas publicadas em mais de 22 países e traduzidas em diversos idiomas. A propósito do seu processo de criação literária, ele confessou: “É meio caótico. Começo com algum encontro que me apontam alguns caminhos. Nunca tive um livro em que eu tivesse um plano predeterminado”.

No momento do bate-papo com o público, Mia foi solicitado para opinar sobre a atual situação política do país. “O mais grave que acontece no Brasil é o que ocorre no mundo inteiro: não sabermos para onde estamos indo. Mas vamos dar a volta por cima, como diz uma música de vocês. Vai vencer a justiça e a liberdade”, posicionou-se, prestando uma homenagem aos brasileiros que estiveram exilados em Moçambique, durante a ditadura militar brasileira.

CAMILLE PAGLIA

(Estados Unidos, 1947)

Ensaísta e crítica cultural norte-americana, Camille Paglia participou do ciclo Fronteiras Braskem do Pensamento em 2008, em Salvador, com a conferência Variedades do erótico na arte do século XX. É uma das intelectuais mais influentes da atualidade e a principal teórica do “pós-feminismo”. Graduada em língua inglesa, seus ensaios abordam as representações da arte na cultura ocidental e suas relações com política, sexo, religião e sociedade. Ganhou destaque ao analisar a interação entre sociedade e cultura na obra Personas sexuais, e valorizar o tema da cultura de massas no ambiente acadêmico com os livros “Sexo, arte e cultura americana” e “Vampes & vadias”, entre outros. Sua mais recente obra traduzida no Brasil é “Imagens cintilantes - Uma viagem através da arte desde o Egito a Star Wars”. No projeto Fronteiras do Pensamento, Camille Paglia realizou as conferências “A mulher na arte: da idade da pedra até Hollywood”, em 2007, em Porto Alegre, e “Arte, cultura e feminismo”, em 2015, em São Paulo. Vídeos exclusivos estão disponíveis no portal www.fronteiras.com.

Camille Paglia fala no Fronteiras Braskem do Pensamento

Para a pensadora norte-americana, as gerações mais jovens estão deixando de lado o aprendizado de sua própria história e por isso estão “famintos de significados”

A ensaísta norte-americana Camille Paglia provocou inquietude no público com as suas opiniões polêmicas, instigantes e críticas sobre arte, sexo, comportamento e sociedade, durante a sua apresentação no Fronteiras Braskem do Pensamento, na terça-feira (15/8), no Teatro Castro Alves. Pensadora de seu tempo, que discorre sobre as incongruências do feminismo, a sexualidade, a política, a religião, a estética e a cultura pop, entre outros assuntos, sem evitar a contradição, Camille deixou a plateia dividida entre aplausos e algumas vaias em uma hora e meia de perguntas e respostas sobre os mais variados temas.

Adotando um formato diferente de apresentação, Camille Paglia optou por dar mais espaço às perguntas da plateia em um debate mediado pela atriz e escritora Bruna Lombardi. Entre os seus posicionamentos, a ensaísta disse: “A internet e as redes sociais podem ser negativas para as novas gerações, na medida em que crescem às custas dos livros. Os jovens estão deixando de lado o aprendizado de sua própria história”.

Durante a conferência, os participantes do Fronteiras Braskem do Pensamento puderam ouvir da própria Camille um resumo de suas opiniões polêmicas e controversas. “Deixem o pós- modernismo de fora das escolas brasileiras, vocês não precisam disso”, declarou, criticando o atual modelo educacional americano. Para ela, os professores não estão levando os estudantes a entenderem os conflitos do passado e estão formando gerações intelectualmente superficiais e “famintas de significado”.

Formada pela Universidade de Yale com Ph.D. em língua inglesa pela mesma instituição, Camille Paglia é uma das intelectuais mais influentes da atualidade e a principal teórica do pós-feminismo. Professora de Humanidades e Estudos Midiáticos na Universidade de Artes da Filadélfia desde 1984, seu método acadêmico é erudito, comparativo e descritivo, e seus ensaios alcançam grande repercussão midiática. Camile, que é filha de imigrantes italianos estabelecidos nos Estados Unidos após a II Guerra Mundial para trabalhar em fábricas de sapatos, caracteriza-se no universo intelectual também pela quebra de paradigmas. Apesar da formação clássica, ela valoriza a cultura popular e massiva no ambiente acadêmico. “A época da arte rebelde, de protesto acabou. O artista, hoje, persegue uma carreira lucrativa que o mercado da arte sugere”, criticou.

Homossexual assumida, Camile – que foi casada por mais de uma década com a artista Alison Maddex, de quem adotou legalmente o filho após a separação – tem uma visão controversa acerca das relações homoafetivas. Segundo ela, as lésbicas são menos perseguidas porque são “mais invisíveis” e, também, porque a relação entre duas mulheres não é vista como uma “ofensa” à masculinidade. Entretanto não é adepta da ideia de que uma criança possa ter “duas mães” ou dois pais.

Ao comentar o casamento gay, Camille se mostra ainda mais polêmica, já que apoia a união civil,mas não o casamento entre as pessoas do mesmo gênero. “Não entendo por qual motivo os gays devem repetir o modelo de união dos héteros. Acredito que os gays devam criar seus próprios modelos de união, nos quais não haja a necessidade de validação religiosa. Quem quiser se casar, que vá a uma igreja, que aceite casá-lo”, instiga a norte-americana, que critica, também, a interferência do Estado na vida privada. “Defendo o direito do indivíduo ser livre e se expressar livremente”, pontua.

Considerando-se uma dissidente do feminismo, a pensadora analisa, também, de forma crua, a atual luta social das mulheres. “O problema do feminismo moderno é tentar transferir as regras da vida pública para a privada”, afirmou, defendendo o direito das mulheres terem total liberdade, inclusive para “não desejarem o que se espera delas hoje em dia: educação, uma carreira etc”. Camille Paglia já esteve em Salvador, em 2008, realizando a conferência “Variedades do erótico na arte do século XX”. No projeto Fronteiras do Pensamento também esteve em São Paulo, em 2015, com a conferência “Arte, cultura e feminismo”, e em Porto Alegre, em 2007, com a fala “A mulher na arte: da idade da pedra até Hollywood”. Os resumos das conferências e entrevistas exclusivas estão disponíveis no portal www.fronteiras.com. O calendário 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento será encerrado no próximo dia 5 de setembro com a conferência da política e ativista moçambicana Graça Machel.

Bloquear um discurso em um campus universitário é antidemocrático e antifeminista

Abaixo, um texto de Camille Paglia sobre a sua obra “Free Women, Free Men”, ainda inédita no Brasil Por Camille Paglia

A história se move em círculos. A praga do politicamente correto e os ataques à liberdade de expressão que ocorreram nos anos 1980 e foram superados nos anos 1990 voltaram com tudo. Nos Estados Unidos, as universidades e a grande mídia estão sendo atualmente policiadas por uma polícia do pensamento bem-intencionada, mas implacável, tão dogmática em suas ideias como os agentes da Inquisição espanhola. Fomos jogados novamente em um caos ético em que a intolerância se disfarça de tolerância e a liberdade individual é esmagada pela tirania do coletivo.

Os principais princípios do meu livro “Free Women, Free Men” são a liberdade de pensamento e de expressão – aberta, móvel e sem os limites de ideologias libertárias ou conservadoras. A dicotomia entre libertários versus conservadores, que vem da divisão entre esquerda e direita que se seguiu à Revolução Francesa, está irremediavelmente defasada para uma era muito mais complexa de expansão tecnológica e política global. Uma amarga polarização entre esquerda e direita se tornou tão extrema, tanto no continente americano quanto na Europa, que, às vezes, se assemelha a uma doença mental, separada das realidades do senso comum da vida cotidiana.

Meu feminismo dissidente está enraizado em minha própria experiência da infância, como uma teimosa rebelde contra o sufocante conformismo dos anos 1950, quando os norte-americanos, exaustos por duas décadas de instabilidade econômica e guerra, trouxeram de volta o culto vitoriano à domesticidade que limitava as aspirações de jovens meninas e as confinava (em minha visão invejosa) em uma feminidade sentimental e cortês.

Em 1991, o New York Newsday publicou minha carta aberta sobre o estupro, que ainda é a coisa mais controversa que já escrevi. Republicada em jornais regionais de costa a costa, editada de qualquer jeito, causou grande repercussão negativa. Houve uma campanha coordenada, evidentemente emanando de grupos feministas do meio-oeste do país, para pressionar o reitor da minha universidade a me demitir. O artigo, muitas vezes republicado em materiais para calouros de universidades públicas, me causou intermináveis problemas durante os anos 1990. Ocorreram protestos do lado de fora de conferências que eu dei em universidades e eu tive que sair de entrevistas (para evitar brigas) em programas de televisão ingleses e austríacos, e até do palco do Queen Elizabeth Hall, em Londres.

Eu defendo cada palavra do meu manifesto sobre o estupro. As mulheres se infantilizam quando entregam a responsabilidade de encontros sexuais para os homens ou a comitês de queixa após o fato consumado, coisas que não fazem jus a verdadeiras feministas. Minha geração baby-boom demandou e ganhou o fim de tais regras parietais, e é verdadeiramente trágico que hoje tantas jovens mulheres parecem querer voltar a manter essas proteções paternalistas. Enquanto professora universitária, quero que nossas universidades paternalistas e autoritárias parem todo o envolvimento ou a vigilância sobre a vida social dos estudantes e suas interações pessoais, verbais ou não. Se um crime for cometido, deve ser denunciado à polícia. De outra forma, administrações universitárias deveriam cuidar de seus próprios problemas e se focar em facilitar e financiar a educação em sala de aula.

Um Movimento de Liberdade de Expressão, liderado por um impetuoso descendente de italianos, Mario Savio, explodiu na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em 1964, o ano em que entrei na faculdade. Foi um momento primordial para minha geração. A postura anti-establishment do Movimento de Liberdade de Expressão representava a autêntica revolução populista dos anos 1960, que resistia aos abusos de autoridade de uma elite repressora. Como pode a esquerda acadêmica atual apoiar, em vez de protestar contra, códigos de discurso nos campi, bem como a grotesca vigilância e o excesso de regras da vida estudantil? Faculdades norte-americanas abandonaram sua missão educacional e se tornaram colônias do governo, governadas por oficiais responsabilidade pessoal, pode apenas ser construído por uma prudente aliança entre mulheres fortes e homens fortes

GRAÇA MACHEL

(Moçambique, 1945)

Política e ativista dos direitos humanos, Graça Machel foi ministra da Educação e da Cultura de Moçambique entre 1976 e 1989, grande parte durante o governo de seu esposo, Samora Machel, morto em 1986. Defensora internacional dos direitos das mulheres e das crianças, foi nomeada em 1990 pela ONU para o Estudo do Impacto dos Conflitos Armados na Infância, trabalho pelo qual recebeu a Medalha Nansen das Nações Unidas, em 1995. Em 1998, casou-se com Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul, tornando-se a única pessoa no mundo a ser primeira-dama de mais de uma nação. Formada em Filologia Germânica, Graça Machel atuou como professora, militou na Frente da Libertação de Moçambique (FRELIMO), e é membro do Painel para o Progresso da África (APP), grupo constituído por dez distintas personalidades que defendem o desenvolvimento equitativo e sustentável da África. Veja mais sobre a ativista no fronteiras.com.

Graça Machel encerra a temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento

Com uma verdadeira aula de esperança, a ativista dos direitos humanos moçambicana Graça Machel encerrou a temporada 2017 do projeto falando de imigração, direitos humanos, diferença entre gênero, racismo e exploração infantil

“É possível tornar a vida mais digna, tornando as relações mais humanas”; “A cultura liberta as pessoas”; “Acredito na transformação social”. Essas foram algumas das declarações feitas pela ativista dos direitos humanos moçambicana Graça Machel, durante a conferência que encerrou, na noite de terça-feira (05/09), no palco principal do Teatro Castro Alves, em Salvador, a temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento.

Em frente a uma plateia atenta, a ex-ministra da Educação de Moçambique e, desde 2010, gestora do fundo internacional que leva seu nome, Graça Machel falou sobre a onda de imigração, direitos humanos, diferença entre gêneros, racismo e exploração infantil. A conferência foi apresentada pelo doutor em Filosofia, Eduardo Wolf, curador-assistente do Fronteiras do Pensamento e com a mediação de Zulu Araújo, diretor da Fundação Pedro Calmon. Durante sua conferência, Graça assegurou que “o Brasil é um exemplo de integração de imigrantes”.

Ela questionou porque, hoje em dia, o fenômeno da imigração é visto com medo. “As imigrações fazem parte da experiência humana ao longo dos séculos e até de milênios, faz parte do DNA social”, afirmou a ativista. Para Graça, a desigualdade econômica é um fenômeno motivador das imigrações. “Atualmente, existem presidentes que acham que podem construir muros para separar pessoas. É preciso algumas vozes mais esclarecidas para atentar que o islã é uma religião de paz. Existem alguns indivíduos que são terroristas, mas precisamos não generalizar”, adverte.

Formada em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa, Machel atuou como professora e lutou clandestinamente com a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) durante a Luta Armada da Libertação Nacional. “Hoje, somos uma África que temos marcas do coronelismo. Não somos um continente homogêneo. Temos duas mil línguas na África. A Nigéria sozinha tem 500 línguas. Apesar das várias colonizações conseguimos preservar muito de nossa tradição. Não somos franceses ou ingleses, somos africanos”, garante. Durante a sua fala, Graça alertou, ainda, que a globalização, com todas as vantagens que trouxe, também deixou muitas marcas da pobreza. “A grande maioria do nosso povo, nas zonas rurais africanas, tem muito pouco de globalização”.

Ligada desde muito cedo a organizações sociais para a manutenção dos direitos de mulheres e crianças, Graça Machel não chegou a conhecer o próprio pai, que morreu três semanas antes do seu nascimento. Filha mais nova de uma família de origem humilde, cresceu e acompanhou o empenho e o esforço de sua mãe para criar sozinha os sete filhos. Em 2010, a ativista fundou a Graça Machel Trust, organização de direito com foco na saúde e na nutrição de crianças, na educação, no empoderamento econômico e financeiro das mulheres e no desenvolvimento de estratégias de governança e liderança femininas na África. “A única diferença que existe realmente entre o homem e a mulher é o gênero, mas fizeram o homem crer que pode matar as mulheres”, lamenta a conferencista.

Outras duas grandes causas levantadas por Graça Machel são o trabalho em favor das vítimas de casamentos infantis e o combate a quaisquer tipos de racismo. “A realidade é que pessoas de pele negra em qualquer continente lutam para sobreviver. Precisamos fazer uma introspecção para saber que tipo de pessoa nos tornamos”, provoca Graça. “Hoje, a família humana tem grandes desafios: aceitar que homens e mulheres e pretos e brancos são iguais. Não há nada que nos diferencie”, garante. Ao finalizar sua fala, a conferencista provocou a plateia questionando: “O que podemos fazer para desmantelar esses mitos?”.

Fotos: Ag. BAPress e Genilson Coutinho

Fronteiras.com

Fronteiras.com reúne conteúdos de mais de 150 intelectuais internacionais

O Portal do Fronteiras do Pensamento (www.fronteiras.com) reúne artigos, entrevistas, notícias, vídeos, produtos culturais e fascículos educacionais produzidos ao longo de uma década de criação do projeto. São conteúdos de mais de 150 conferências internacionais, 24 filmes de curta e média metragens, mais de 600 vídeos, séries de livros e outras publicações.

O curador do Fronteiras do Pensamento, Fernando Schüler, ressalta que a iniciativa foi criada para permitir que qualquer pessoa, tanto estando em uma escola na periferia de Luanda, em Angola, ou no metrô de Nova Iorque, pudesse aprender com as ideias expressas no palco do Fronteiras. “Essa pessoa pode visualizar um vídeo com um minuto de duração ou optar por assistir a uma entrevista na íntegra, dependendo da sua disponibilidade de tempo. Pode, também, fazer uso educativo, apresentando o conteúdo para os seus alunos ou simplesmente refletir no silêncio de uma noite qualquer”, explica.

Lançado pela equipe curatorial do Fronteiras do Pensamento, em 2013, e apresentado pela Braskem, o portal pretende ampliar o alcance das séries de conferências, disponibilizando o acervo audiovisual e de conteúdos inéditos do projeto. O canal digital também agrega conteúdos sobre todos conferencistas que já passaram pelos palcos do Fronteiras, publicados em mídias diversas.

Confira alguns dos intelectuais que já passaram pelo Fronteiras Braskem do Pensamento.

Enrique Peñalosa

O economista e urbanista colombiano fala em entrevista exclusiva sobre o processo de desenvolvimento das cidades, da necessidade de planejamento e de uma nova distribuição dos espaços.

Leymah Gbowee

No vídeo “Ninguém pode alegar ter sucesso sozinho”, a ativista liberiana que ajudou a dar fim à Segunda Guerra Civil da Libéria discute a percepção do "eu fiz sozinho", que torna a contemporaneidade um período de individualismo ilusório.

Wim Wenders

O curta-metragem “De volta ao Quarto 666”, uma produção audiovisual da V2 dirigida por Gustavo Spolidoro, discute o futuro do cinema a partir de uma releitura do filme do cineasta, fotógrafo e professor universitário alemão Wim Wenders, "Quarto 666" ("Chambre 666"), rodado em Cannes, durante o festival de 1982.

Edgar Morin

No vídeo “O caminho: para o futuro da humanidade”, o sociólogo francês discute o que chama de “crise geral da humanidade”. Segundo Morin, a base para compreender a série de crises que estamos vivendo é a ambiguidade da globalização: por um lado, se os problemas contemporâneos agora são globais, por outro, as nações nunca antes foram tão interligadas em uma mesma “comunidade de destino”.

Manuel Castells

No vídeo “Redes de indignação e esperança”, o sociólogo espanhol Manuel Castells, considerado o maior especialista em movimentos sociais da atualidade, divulga seus estudos e conclusões sobre os conflitos civis mundiais, como ocupação dos espaços públicos, interação constante entre o físico e a internet.

Contardo Calligaris

No libreto sobre o psicanalista e cronista italiano, radicado no Brasil, consta biografia, indicação de livros, citação de frases e relação de links e vídeos, além de um trecho do ensaio “A estrada da memória: Uma defesa da vida urbana”. A versão integral do texto também está disponível na seção de artigos do portal. Veja mais: www.fronteiras.com

Luc Ferry

No vídeo “Os efeitos positivos da globalização liberal”, o filósofo francês Luc Ferry explica os benefícios e os impactos do liberalismo na sociedade. Ele é o principal defensor do humanismo secular, considerado o herdeiro da tradição filosófica humanista. Publicou mais de uma dezena de livros sobre temas que vão de Nietzsche à ecologia.

Salman Rushdie

No vídeo “Somos seres plurais”, o escritor indo-britânico defende a pluralidade do indivíduo e vai contra o que denomina "política de identidade", a necessidade de limitar a identidade com padrões simples como forma física, emprego, time de futebol, religião.

Jean-Michel Cousteau

O que é importante para todos é entender que a natureza é nosso capital. E é preciso administrá-lo como se fosse um negócio, como uma operação", afirma Jean-Michel Cousteau em breve entrevista exclusiva.

Valter Hugo Mãe

No vídeo “Para nos tornarmos Humanidade”, o escritor português desconstrói a ideia de “humanidade”. Para ele, este conceito está menos para uma definição biológica e mais para uma construção cultural, defendendo, ainda, que a humanidade que construímos em nós difere do bicho que somos.

Créditos

EDIÇÃO

ALEILE MOURA

aleilemoura@grupoatarde.com.br
Textos

CLAUDIA LESSA

Fotos

AG. BAPRESS

Design e criação de site

Marco Prado

marcopradompd@gmail.com